Linda entrevista com o grande José Ângelo Gaiarsa!

(Acho que foi a última que ele deu)

Luis Henriques Júnior

(Outro dia, mexendo em livros não lidos, encontrei um chamado Palavras de Poder, dei uma olhada e tinha um texto do autor para mim. E aí vi que o livro tem muitas entrevistas com gente que gosto muito e com várias pessoas que já entrevistei para o Jornalternativo – Monja Coen, Lia Diskin, Prof. Hermógenes, Susan Andrews e o grande e saudoso Gaiarsa. Gostei muito do livro e passo para vocês trechos da entrevista com o Gaiarsa)

O senhor fala da importância de darmos atenção à nossa criança interior. Como é isso?

O adulto adora fazer cara de sério, de gente “respeitável”, vendo com péssimos olhos os aspectos ditos “infantis” em nós. Mas nossa criança interior é a base de tudo o que podemos vir a ser. É essencial saber ouvi-la, cultivando as situações de encantamento, de brincadeira, de risadas, que são quando ela se manifesta. Aliás, minha definição de amor é esta: se você se sente criança, encantando, olhando, rindo, você está amando. Quando ama, a pessoa vive a sua criança autêntica, anterior às repressões impostas pela sociedade.

E como se dá esse processo de repressão infantil?

Esse é um dos maiores crimes da sociedade, pois a criança é um ser extremamente sensível e inteligente, Por exemplo, de zero a quatro anos, nosso cérebro atinge 90% do tamanho. O que significa que, nesse período, a criança aprende quase tudo o que vai aprender na vida. Mas nossa educação é como a história do Pinóquio ao contrário: o Pinóquio é um boneco de pau que vira menino; e nós fazemos o menino virar um boneco de pau. Porque a palavra básica usada na infância é “não”: não corre, não pula, não mexe; não sei mais o quê. Com isso, a criança vai se transformando num boneco, vai perdendo a espontaneidade, a criatividade. E como é que esse Pinóquio se conserva ao longo da vida? Graças aos outros Pinóquios como ele. Como escrevi um dia: “Todos vigiam todos para que ninguém faça o que todos gostariam de fazer”. Ou seja, a paralisia é induzida já na infância, para que o sujeito seja uma pessoa “normal”; e depois todos vão contribuindo para manter a “normalidade” geral da nação, cada um mais perdido de si que o outro.

(Nota do Roberto: Esse é o conceito de ‘Normose’ de outra grande figura, que também admiro muito, o Professor Hermógenes, do Yoga.)

Daí vivemos como autômatos, com comportamentos repetitivos e sem mobilidade. Algo que vai contra nosso sistema biológico, porque nada menos do que dois terços do nosso cérebro são dedicados ao sistema motor. Simplesmente porque movimento é sobrevivência.

Os livros ensinam que temos cerca de 500 músculos. Mas o que quase ninguém sabe é que também temos 250 mil dos chamados neurônios motores, cada um deles ligado a um grupo de fibras musculares. E que cada unidade motora, que é o neurônio motor mais o músculo, tem no mínimo, dez graus de contrações diferentes. Multiplique isso e veja o que dá. Ou seja, matematicamente demonstrado, nossa amplitude de movimentos é quase infinita. Por isso Shiva é o mais legítimo dos deuses, pois é o Deus da Dança, o Deus do Movimento.

E como fazer para despertar esse Shiva que existe dentro de nós?

Mexa-se muito e respire bastante. É o que eu faço todos os dias: eu danço. Ponho uma música e danço.

(Outra NR: Um dia visitei o Gaiarsa, ele abriu a porta e me disse: Sente aí e fique em silêncio. E saiu dançando. Sabem que músicas? De Mozart. Porque claro ele não iria dançar axés, sertanejos e outros horrores que temos hoje.)

Não é ginástica. A coisa é mexer o corpo inteiro, sempre respirando, quanto mais melhor. Aliás essa é uma técnica de vitalização permanente. Na realidade, as pessoas morrem por rigidez de movimentos e sufocação gradual. É isso que favorece o aparecimento de doenças. Como antídoto a essa morte anunciada, um conselho prático: mexa-se e respire bastante.

E há algum modo certo de respirar, alguma técnica para isso, como no renascimento ou na respiração holotrópica?

A técnica é apenas uma: muita respiração, do seu jeito. Não existe modo certo de respirar. Apenas fique de pé e respire bem mais do que costuma, cerca de cinco minutos já são suficientes. Vá respirando e, se o corpo se mexer, acompanhe o movimento, pois é o corpo querendo se desamarrar. Nosso corpo é como bicho mantido preso. Se você dá oxigênio, ele começa a despedaçar as amarras. Chamo isso de técnica de exorcismo: coloque-se de pé e, por alguns minutos, respire bastante, estando bem presente ao corpo, deixando-o se mexer.

Agora, é importante uma ressalva aqui: existe um risco. Por causa da oxigenação a que a pessoa não está acostumada, às vezes podem aparecer bichos sérios, como, por exemplo, muito medo ou muita raiva.

Assim, se quiser fazer esse exercício, é bom ter um amigo ao lado que lhe sirva de apoio numa situação difícil. Com o tempo, adquire- se familiaridade

O senhor chega a dizer que a respiração tem tudo a ver com próprio espírito. qual é a relação?

Minha definição de espírito é esta: “Espírito é o invisível, todo-poderoso, que me dá vida”. Ou seja, o espírito é o oxigênio do ar. Aliás, não é à toa que as palavras “respiração” e “espírito” têm a mesma origem etimológica, a raiz espir – a conexão entre as duas coisas é total, ambas falam do invisível que nos dá vida.

(NR. Maravilhoso, não? E o Gaiarsa ainda dizia em outro trecho que a pessoa idosa se movimentando bastante e respirando bem, não teria grandes doenças e desencarnaria tranquilamente. Estive muitas vezes com o Gaiarsa nos seus 3 a 4 últimos anos. Sempre com boa saúde, cabeça maravilhosa, estudando muito, escrevendo livros e dando palestras e cursos. E sabem como ele faleceu? Deitou normalmente para dormir uma noite e não acordou mais! Gente, vamos nos movimentar e respirar bastante. E agradecer muito ao Gaiarsa)


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