Mesmo com aterros cheios, a cidade de São Paulo só recicla 1,2% e está longe de atingir meta nacional de 6% até 2015; entenda onde estão os gargalos 

Por Alexandre Aragão e Elvis Pereira

 

A coleta de material reciclável na rua João José Pacheco, na Vila Mariana, na zona sul, está marcada para ocorrer toda quarta-feira, às 10h20. Mas até o meio-dia do último dia 16 não havia nem sinal do caminhão contratado pela prefeitura. Nesse intervalo, uma Kombi particular recolheu plástico, papel e latinhas separados pelos moradores e levou tudo para um galpão no Jabaquara.

O descumprimento do horário é só um dos gargalos do processo de reciclagem na capital. Um dos menores, diga-se. A coleta formal é limitada, a construção de centrais de triagem está atrasada e a separação de lixo em casa ainda não é um hábito.

Hoje, das 18 mil toneladas de resíduos geradas pelos paulistanos diariamente, 1,2% é recolhido para reaproveitamento por prefeitura e concessionárias Ecourbis e Loga. Não há números sobre a reciclagem informal, feita, por exemplo, por catadores.

Considerado irrisório, esse índice é reflexo da combinação de uma série de fatores, que envolvem poder público, empresas e população. “Ninguém trabalha com a barriga vazia, essa que é a verdade”, dispara o diretor-presidente da Loga, Luiz Gonzaga Alves Pereira. Ele se refere ao reajuste do valor do contrato firmado em 2004 entre a prefeitura e as duas concessionárias. À época, concordou-se com o pagamento de R$ 9,8 bilhões às duas empresas ao longo de 20 anos. A cada cinco, o valor precisa ser adequado à realidade econômica.

A primeira revisão estava prevista para 2009. Mas, na semana passada, seguiaem análise. “Issoreestabelece as condições financeiras e possibilita às duas concessionárias voltar a investir”, justifica Alves Pereira.

“A administração está avaliando um primeiro estudo”, responde Márcio Matheus, presidente da Amlurb (Autoridade Municipal de Limpeza Urbana), órgão que gerencia o serviço de limpeza pública na cidade.

Cooperativas

Além da arrastada discussão sobre o reajuste, as 20 cooperativas que mantêm convênios com a prefeitura para separar e vender os resíduos recicláveis não dão conta da demanda. 

O mesmo contrato firmado entre a prefeitura e as duas concessionárias previa 13 centrais de triagem a partir de 2007. Cinco anos depois, elas não estão nem perto de sair do papel.

A principal dificuldade nesse caso, segundo Matheus, da Amlurb, é encontrar terrenos e galpões disponíveis. “Estamos com sete áreas que são objeto de desapropriação para instalar centrais. Talvez consigamos instalar uma até o final do mês, na Lapa.”

A falta de pontos para receber o lixo atrapalha a expansão da coleta seletiva. O serviço abrange hoje ruas e avenidas de 21 das 31 subprefeituras.

Alves Pereira, da Loga, ressalta que não há como expandir a coleta sem antes criar mais pontos de triagem e aperfeiçoar os já existentes. “Não estou dizendo que a culpa é das cooperativas. Mas elas dão conta de lidar com 5 milhões de toneladas produzidas? Hoje, não dão”, afirma. “É preciso melhorar todo o sistema.”

Procurada pela reportagem, a outra concessionária que atua na capital, a Ecourbis, não concedeu entrevista.

 

Três vezes mais caro

Outro gargalo que limita a reciclagem é o preço da coleta porta a porta. Recolher e destinar os materiais custa pelo menos o triplo na comparação com o lixo comum. Os valores gastos em São Paulo são mantidos em sigilo.

Segundo estudo do Cempre (Compromisso Empresarial para Reciclagem) de 2010, o custo médio por tonelada em grandes cidades brasileiras era de R$ 85 para resíduos comuns e de R$ 367 para recicláveis.

O reciclável perde para o comum por conta do uso de aterros sanitários. “É o mais barato, simples”, diz Luiz Girard, diretor regional da Essencis, empresa que possui, em Caieiras, na região metropolitana, o maior espaço para armazenar lixo no Estado. Somente da capital o aterro recebe 6.000 toneladas todo dia. Metade é material orgânico, como alimentos. O restante varia de fraldas a sofás.

Uma forma de baratear o processo é criar pontos de coleta mecanizada, processo no qual o próprio cidadão leva seu lixo reciclável. Dois deles estão instalados nos Jardins e no Parque Novo Mundo, nas zonas oeste e norte. Nas duas áreas, 300 moradores foram cadastrados e receberão cartões para depositar os resíduosem estruturas metalizadas. Ambosestão prontos, mas não têm data de inauguração.

“Esse tipo de coleta evita o contato dos trabalhadores com os resíduos e é uma forma mais segura e eficiente”, diz Cláudia Echevenguá Teixeira, pesquisadora do Centro de Tecnologias Ambientais e Energéticas do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas). Gasta-se muito para recolher e reciclar e, na outra ponta, há poucos interessados em usar material reaproveitado. Para as empresas, não há vantagens financeiras.

“O plástico reciclado paga o mesmo IPI [Imposto sobre Produtos Industrializados] que o novo. Fica difícil de concorrer no mercado”, diz o professor Marco-Aurelio de Paoli, do Instituto de Química da Unicamp. 

“As empresas fazem mais por posicionamento: é vantajoso ser sustentável”, diz Carlos Silva Filho, diretor-executivo da Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais). “Benefício concreto não tem, está mais relacionado à imagem.”

 

Questão nacional

As dificuldades vistas em São Paulo são as mesmas no resto do país. “O índice de reciclagem é baixíssimo. Temos algo em torno de 1%”, diz o gerente de projetos Ronaldo Soares, do Ministério do Meio Ambiente.

O dado do governo federal é de 2008. “Não temos informação de como está a reciclagem no país.” Ele explica: “Isso tem a ver com o tempo que levamos para ter um marco regulatório”, diz,em referência ao Plano Nacionalde Resíduos Sólidos, sancionado em 2010. “Estamos 21 anos atrasados.”

O plano estabelece como meta a reciclagem de 6% do total de lixo gerado nas cidades até 2015. “Mas só a reciclagem do resíduo sólido seco não resolve”, alerta ele. “Se ela for muito bem-sucedida, acaba com o problema de 30% dos resíduos.”

Com o restante, discute-se se a melhor opção é incinerar ou enviar para usinas de compostagem, pois, de 2014 em diante, aterros poderão receber apenas o que de fato não puder ser reaproveitado. “Não tem solução pronta. O desafio é enorme.”

Outra parte importante é a conscientização à população. “O pessoal fala muito em sacolinha, mas isso é 0,002% do que chega aqui. Faz-se um burburinho tremendo por algo ínfimo, que não tem repercussão. É muito oba-oba”, diz Luiz Girard, diretor regional da Essencis, do aterro de Caieiras.

O artista plástico Eduardo Srur, que instalou neste mês uma obra no parque Ibirapuera feita de plástico reciclável, acha que o paulistano se comporta mal. “Dou um sentido diferente ao fardo de lixo, que depois volta a ser lixo.” A seu ver, os habitantes consomem e produzem lixo em excesso.

Em média, cada paulistano gerou 340 kg de lixo domiciliar no ano passado inteiro. “Cabe ao cidadão incorporar novos hábitos e reduzir a quantidade de resíduos que ele descarta”, defende André Vilhena, da Abrelpe.

“Não estou dizendo que a culpa é das cooperativas. Mas elas dão conta de 5 milhões de toneladas produzidas? Hoje, não”  Luiz Gonzaga Alves Pereira, diretor-presidente da concessionária Loga.

 

Por que reciclamos tão pouco?
Veja os cinco principais motivos

 

FALTA DE INVESTIMENTO

Além de 13 novas centrais de triagem não terem saído do papel, os contratos da prefeitura com as duas empresas concessionárias estão defasados. Assim, elas não investem mais em coleta seletiva

 

BAIXA ADESÃO

Mesmo onde há coleta seletiva, a adesão não é alta. O paulistano não está acostumado a separar o lixo, o que influencia nos custos do processamento – quanto mais mal separado, mais difícil de o lixo ser reciclado

 

DESORGANIZAÇÃO

Após serem entregues às cooperativas, os resíduos não sofrem mais nenhum controle por parte da prefeitura. Por parte das concessionárias, os horários de coleta nem sempre são cumpridos, o que dá margem à ação de coletores não-cadastrados

 

FALTA DE DEMANDA

Com exceção das latinhas de alumínio, os demais materiais recicláveis ainda não ganharam o mercado e não se tornaram economicamente atrativos. Às vezes, usar a matéria-prima nova pode sair mais em conta

 

SEM MECANIZAÇÃO

O modelo de cooperativas privilegia a utilização de mão de obra, deixando a mecanizaçãoem segundo plano. Sea triagem fosse feita por máquinas, mais material poderia ser aproveitado

Fontes: Claudia Ruberg, Ecourbis, prefeitura, Loga, Marco-Aurelio de Paoli

 

O CAMINHO DO LIXO

O processo de reciclagem na capital desde a coleta

1- coleta
O lixo comum e o reciclável são recolhidos, em caminhões diferentes, pelas duas concessionárias contratadas pela prefeitura. A coleta seletiva é feita em bairros de 21 das 31 subprefeituras

2- transbordo
Carregados, os caminhões seguem para um dos três transbordos
– Ponte Pequena
– Vergueiro
– Santo Amaro

LIXO COMUM
O lixo domiciliar é descarregado, pesado e vai para dois aterros: CTL (Central de Tratamento de Resíduos Leste), da prefeitura, e o de Caieiras, particular

LIXO RECICLÁVEL
O material é pesado e vai para as 20 cooperativas cadastradas pela prefeitura

ecoponto

Os paulistanos também podem descartar lixo reciclável (além de entulho, móveis velhos etc.) nos 55 ecopontos da cidade. Cada pessoa pode levar até 1 m³ de lixo

 

3 cooperativas

Elas funcionam como centrais de triagem e recebem lixo reciclável tanto da coleta seletiva quanto dos ecopontos. Elas separam e vendem o material. A prefeitura não participa desse processo

Ecourbis, Prefeitura de São Paulo e Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo)

 

Seis aterros atendem a capital

CAIEIRAS
Particular, recebe lixo domiciliar. A prefeitura estuda sete terrenos nas zonas norte e oeste para deixar de usá-lo.
Está ocupado em 50%

 

RIUMA
Recebe entulho da construção civil. O espaço no Jaraguá funciona desde 2005.
Está ocupado em 77%.

CDR PEDREIRA
Recebe varrição de ruas e podas de árvores. Situado no Tremembé, foi aberto em 2001.
Está ocupado em 76%.

ITAQUAREIA
Recebe entulho da construção civil.
Está ocupado em 90%.

CTL LESTE
Lixo domiciliar. Último aterro inaugurado na cidade, abriu em 2011.
Está ocupado em 15%.

LUMINA
Recebe entulho da construção civil. Situado em Parelheiros, opera desde 2008.
Está ocupado em 66%

LIXO NÃO INERTE
biodegradáveis, combustíveis e solúveis.
Por exemplo: restos de comida,

LIXO INERTE
o que não é biodegradável, combustível e solúvel. Por exemplo: entulho de obras

 

‘SP é refém de aterros’

Arquiteta propõe compostagem e incineração de lixo como melhores alternativas para o caso paulistano.
Professora da Universidade Federal de Sergipe, a arquiteta Claudia Ruberg estudou em seu doutorado, na USP, alternativas para os problemas com lixo em São Paulo. Como principal solução, ela elege a compostagem e a incineração de rejeitos.

 

Por que a incineração não é usada?

A experiência brasileira foi ruim. Tínhamos equipamentos obsoletos, altamente poluentes, com capacidade pequena. Até o momento, não temos grandes incineradores. Temos equipamentos de menor porte, para resíduos de serviço de saúde, com outras características. O panorama hoje em dia é diferente do das décadas de 1940 e 50, há tecnologia que garante uma proteção ambiental.

Por que a cidade recicla tão pouco?

A característica do nosso resíduo é essencialmente orgânica. O material pode ser compostado e virar adubo. Mas, para que isso aconteça, ele deve chegar previamente separado. Como a gente tem coleta porta a porta, esse processo torna-se mais complexo. Não há a garantia de que o material será bem separado.

A coleta porta a porta também é um empecilho no caso dos recicláveis?

Com esse tipo de coleta, deve haver estruturas separadas de transporte, uma das partes mais caras. Aumentar o sistema em número de veículos coletores vai encarecer algo que já é caro. A alternativa seria adotar a entrega voluntária.

Por que o modelo atual não é ideal?

Por ser uma megacidade, São Paulo produz uma grande quantidade de resíduos. É muito complexo e custoso equacionar todos os elementos. As áreas de aterros são grandes e, muitas vezes, ficam em outros municípios porque não há espaços adequados na própria cidade.

Quais as implicações de os aterros ficarem em outros municípios?

Faz com que a cidade produtora se torne refém. Se o município que recebe o lixo se recusar a recebê-lo, o problema será de quem produz. Assim, as distâncias aumentam cada vez mais.

REVISTA SÃOPAULO (27.MAI, PÁG. 32) André Vilhena, entrevistado na reportagem “Lixo embaixo do tapete. Até quando?”, de Alexandre Aragão e Elvis Pereira, é diretor do Cempre (Compromisso Empresarial para Reciclagem) e não da Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais.


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